31 de outubro de 2008

Acordo ortográfico

Acordo ortográfico - Apresentação
Um novo jeito de escrever
Acordo vem para unificar a ortografia oficial dos países de língua portuguesa e aproximar nações
Mariana Sgarioni
"A adopção de uma única ortografia entre países de língua portuguesa pode ser óptima.” Se este texto fosse escrito em Portugal, a frase anterior estaria corretíssima. Já no Brasil, a letra p (nas palavras adopção e óptima) está sobrando e parece um erro de digitação – apesar de todos sabermos que se trata do mesmo idioma. Do ponto de vista da ortografia, existem diferenças bastante relevantes na língua portuguesa. E não apenas entre os dois países. Nas outras seis nações que falam e escrevem o português (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) ocorre o mesmo.
Para acabar com essas diferenças, foi criado, em 1990, um acordo ortográfico – que deve vigorar no Brasil a partir do ano que vem (saiba mais sobre os próximos passos da implementação do acordo no quadro da página 7). “A existência de duas grafias oficiais acarreta problemas na redação de documentos em tratados internacionais e na publicação de obras de interesse público”, defendia o filólogo Antônio Houaiss, o principal responsável pelo processo de unificação aqui no Brasil.
Originalmente, o combinado era que todos os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deveriam ratificar o acordo para que ele tivesse valor. Em 2004, porém, os chefes de Estado da CPLP decidiram que bastava a aprovação de três nações para a reforma ortográfica entrar em vigor. O Brasil, no entanto, definiu que mudaria o jeito de escrever somente se Portugal também o fizesse (e o “sim” de Lisboa às novas normas só veio no ano passado). É importante ressaltar que a pronúncia, o vocabulário e a sintaxe permanecem exatamente como estão. A novidade é a unificação da grafia de algumas palavras.
Língua internacional
Daqui para a frente, a língua portuguesa (comum aos países lusófonos) tem tudo para ganhar espaço – até mesmo em fóruns internacionais –, pois o intercâmbio de informações e textos ficará mais fácil. Unificar a grafia também visa aproximar as oito nações da CPLP, reduzir custos de produção e adaptação de livros e facilitar a difusão bibliográfica de novas tecnologias, bem como simplificar algumas regras (que suscitam dúvidas até entre especialistas).
Do ponto de vista prático, ganha força o idioma falado no Brasil. Isso porque os portugueses terão de promover mais mudanças na escrita do que nós, adaptando várias palavras à grafia brasileira. Por exemplo, acção passa a ser ação. E cai também o h inicial de herva e húmido.
O português é a única língua com dois cânones oficiais ortográficos, um europeu e outro brasileiro, e isso não só dificulta nossa vida lá fora como também a dos estrangeiros que querem aprendê-lo. “Inscreve-se, finalmente, a língua portuguesa no rol daquelas que conseguiram beneficiar-se há mais tempo da unificação de seu sistema de grafar, numa demonstração de consciência da política do idioma e de maturidade na defesa, na difusão e na ilustração da língua da lusofonia”, afirma Cícero Sandroni, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Além da unificação da grafia, o acordo propõe simplificar o idioma, no mesmo espírito do que ocorreu na década de 1910, quando uma reforma semelhante alterou o modo de escrever palavras como pharmacia e christallino (para farmácia e cristalino, sem o ph, o ch e o ll). Na época, porém, as mudanças foram encabeçadas por Portugal, que não consultou o Brasil e acabou aprofundando algumas diferenças ortográficas.
O acordo prevê simplificações (como o fim do trema), mas tem inúmeros pontos obscuros, que só serão esclarecidos com o lançamento de gramáticas atualizadas e um novo Vocabulário Ortográfico oficial (tarefa a cargo da Academia Brasileira de Letras). O professor Pasquale Cipro Neto é um dos que se manifestaram contra o documento. “Ele não se limita a uniformizar a grafia: estabelece outras alterações no sistema ortográfico, várias delas para pior.”
Tempo de adaptação
Aqui no Brasil, a última grande reforma do idioma foi realizada em 1971, a fim de aproximar mais nosso jeito de escrever do de Portugal. Desde então foi abolido o acento diferencial em alguns vocábulos, bem como o acento grave ou circunflexo nas palavras derivadas de outras acentuadas – mais de dois terços dos acentos que causavam divergências foram suprimidos. Nessa mesma época os substantivos acôrdo e govêrno viraram acordo e governo (perderam o circunflexo que os diferenciava das formas verbais eu acordo e eu governo, que eram e continuam sendo pronunciadas de forma diferente). Outras palavras, como somente, propriamente, rapidamente, cortesmente, sozinho, cafezinho e cafezal, também deixaram de ser acentuadas. Naquela ocasião, muitas pessoas estranharam a alteração (sem falar que diversos materiais impressos, como livros, levaram um bom tempo até ter novas edições com o jeito certo de escrever). Até hoje, aliás, ainda há quem escreva êle, com o circunflexo extinto no início dos anos 1970.
Nas páginas deste especial, você vai conhecer (de forma simplificada) as mudanças trazidas pelo acordo, com exemplos de grafias atuais e de como vamos passar a escrever. São regras bastante fáceis, mas que precisam ser bem compreendidas para ser usadas corretamente em textos produzidos no papel ou na tela do computador. Guarde este manual e consulte-o sempre que necessário.
O que muda daqui para a frente
Dezenove anos depois de sua elaboração, tratado deve enfim sair do papel em 2009.
Não é de hoje que os integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) pensam em unificar as ortografias de nosso idioma. Os trabalhos da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Ciências de Lisboa tiveram início em 1980 e consumiram dez anos de negociações até o acordo ortográfico ficar pronto. No Brasil, o Congresso Nacional aprovou o texto em 1995, mas sua implementação ficou “na gaveta”, à espera da aprovação pelos parlamentares de Portugal. Agora, basta um decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a nova grafia entre em vigor no país (até o fechamento desta edição não havia uma data determinada, mas a previsão é que isso ocorra em 2009).
Mesmo sem o decreto presidencial, a Comissão de Língua Portuguesa (Colip), do Ministério da Educação, já propôs que a reforma entre em vigor no próximo dia 1º de janeiro. Estima-se que o período de transição para a nova norma dure três anos.
Se a proposta do MEC for cumprida, todos os textos produzidos a partir de 2009 terão de ser impressos segundo as novas regras lingüísticas. Vestibulares, concursos e avaliações poderão aceitar as duas grafias como corretas até 31 de dezembro de 2011. Quanto aos livros didáticos, deve haver um escalonamento.
A partir de 2010 os alunos de 1º a 5º ano do Ensino Fundamental receberão os livros dentro da nova norma – o que deve ocorrer com as turmas de 6º a 9º ano e de Ensino Médio, respectivamente, em 2011 e 2012.

Acento agudo
O acento agudo desaparece das palavras da língua portuguesa em três casos, como se pode ver a seguir:
nos ditongos (encontro de duas vogais proferidas em uma só sílaba) abertos ei e oi das palavras paroxítonas (aquelas cuja sílaba pronunciada com mais intensidade é a penúltima).
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
assembléia
assembleia
heróico
heroico
idéia
ideia
jibóia
jiboia

NO ENTANTO,
as oxítonas (palavras com acento na última sílaba) e os monossílabos tônicos terminados em éi, éu e ói continuam com o acento (no singular e/ou no plural). Exemplos: herói(s), ilhéu(s), chapéu(s), anéis, dói, céu.

nas palavras paroxítonas com i e u tônicos que formam hiato (seqüência de duas vogais que pertencem a sílabas diferentes) com a vogal anterior quando esta faz parte de um ditongo;
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
baiúca
baiuca
boiúna
boiuna
feiúra
feiura

NO ENTANTO,
as letras i e u continuam a ser acentuadas se formarem hiato mas estiverem sozinhas na sílaba ou seguidas de s. Exemplos: baú, baús, saída. No caso das palavras oxítonas, nas mesmas condições descritas no item anterior, o acento permanece. Exemplos: tuiuiú, Piauí.

nas formas verbais que têm o acento tônico na raiz, com o u tônico precedido das letras g ou q e seguido de e ou i. Esses casos são pouco freqüentes na língua portuguesa: apenas nas formas verbais de argüir e redargüir.
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
argúis
arguis
argúem
arguem
redargúis
redarguis
redargúem
redarguem

Acento diferencial
O acento diferencial é utilizado para permitir a identificação mais fácil de palavras homófonas, ou seja, que têm a mesma pronúncia. Atualmente, usamos o acento diferencial – agudo ou circunflexo – em vocábulos como pára (forma verbal), a fim de não confundir com para (a preposição), entre vários outros exemplos.
Com a entrada em vigor do acordo, o acento diferencial não será mais usado nesse caso e também nos que estão a seguir:
péla (do verbo pelar) e pela (a união da preposição com o artigo);
pólo (o substantivo) e polo (a união antiga e popular de por e lo);
pélo (do verbo pelar) e pêlo (o substantivo);
pêra (o substantivo) e péra (o substantivo arcaico que significa pedra), em oposição a pera (a preposição arcaica que significa para).
NO ENTANTO,
duas palavras obrigatoriamente continuarão recebendo o acento diferencial:
pôr (verbo) mantém o circunflexo para que não seja confundido com a preposição por;
pôde (o verbo conjugado no passado) também mantém o circunflexo para que não haja confusão com pode (o mesmo verbo conjugado no presente).
Observação: já em fôrma/forma, o acento é facultativo.


Acento circunflexo
Com o acordo ortográfico, o acento circunflexo não será mais usado nas palavras terminadas em oo.
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
enjôo
enjoo
vôo
voo
abençôo
abençoo
corôo
coroo
magôo
magoo
perdôo
perdoo

Da mesma forma, deixa de ser usado o circunflexo na conjugação da terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler, ver e seus derivados.
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
crêem
creem
dêem
deem
lêem
leem
vêem
veem
descrêem
descreem
relêem
releem
revêem
reveem
NO ENTANTO,
nada muda na acentuação dos verbos ter, vir e seus derivados. Eles continuam com o acento circunflexo no plural (eles têm, eles vêm) e, no caso dos derivados, com o acento agudo nas formas que possuem mais de uma sílaba no singular (ele detém, ele intervém).
Trema
Um sinal a menos
O trema, sinal gráfico de dois pontos usado em cima do u para indicar que essa letra, nos grupos que, qui, gue e gui, é pronunciada, será abolido. É simples assim: ele deixa de existir na língua portuguesa. Vale lembrar, porém, que a pronúncia continua a mesma.

COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
agüentar
aguentar
eloqüente
eloquente
freqüente
frequente
lingüiça
linguiça
sagüi
sagui
seqüestro
sequestro
tranqüilo
tranquilo
anhangüera
anhanguera

NO ENTANTO,
o acordo prevê que o trema seja mantido em nomes próprios de origem estrangeira, bem como em seus derivados. Exemplos: Bündchen, Müller, mülleriano.

COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
agüentar
aguentar
eloqüente
eloquente
freqüente
frequente
lingüiça
linguiça
sagüi
sagui
seqüestro
sequestro
tranqüilo
tranquilo
anhangüera
anhanguera

Hífen
Palavras compostas
O hífen deixa de ser empregado nas seguintes situações:
quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com as consoantes s ou r. Nesse caso, a consoante obrigatoriamente passa a ser duplicada;
quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente.
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
anti-religioso
antirreligioso
anti-semita
antissemita
auto-aprendizagem
autoaprendizagem
auto-estrada
autoestrada
contra-regra
contrarregra
contra-senha
contrassenha
extra-escolar
extraescolar
extra-regulamentação
extrarregulamentação

NO ENTANTO,
o hífen permanece quando o prefixo termina com r (hiper, inter e super) e a primeira letra do segundo elemento também é r. Exemplos: hiper-requintado, super-resistente.
Palavras compostas
O hífen deixa de ser empregado nas seguintes situações:
quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com as consoantes s ou r. Nesse caso, a consoante obrigatoriamente passa a ser duplicada;
quando o prefixo termina em vogal e o segundo elemento começa com uma vogal diferente.

COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
anti-religioso
antirreligioso
anti-semita
antissemita
auto-aprendizagem
autoaprendizagem
auto-estrada
autoestrada
contra-regra
contrarregra
contra-senha
contrassenha
extra-escolar
extraescolar
extra-regulamentação
extrarregulamentação

Alfabeto
Novas letras

O acordo prevê que nosso alfabeto passe a ter 26 letras – hoje são 23.
Além das atuais, serão oficialmente incorporadas as letras k, w e y.
No entanto, seu emprego fica restrito a apenas alguns casos, como já ocorre atualmente. Confira os principais exemplos:
em nomes próprios de pessoas e seus derivados;
Exemplos: Franklin, frankliniano, Darwin, darwinismo, Wagner, wagneriano, Taylor, taylorista, Byron, byroniano.
em nomes próprios de lugares originários de outras línguas e seus derivados;
Exemplos: Kuwait, kuwaitiano, Washington, Yokohama, Kiev.
em símbolos, abreviaturas, siglas e palavras adotadas como unidades de medida internacionais;
Exemplos: km (quilômetro), KLM (companhia aérea), K (potássio), W (watt), www (sigla de world wide web, expressão que é sinônimo para a rede mundial de computadores).
em palavras estrangeiras incorporadas à língua.
Exemplo: sexy, show, download, megabyte.
O que muda em Portugal
Considerações gerais
Boa parte das mudanças previstas no novo acordo não afeta o português escrito no Brasil, mas tem relação direta com a grafia atual das palavras em Portugal.
Um exemplo é a eliminação da letra h no início de palavras como herva e húmido (que há muito tempo são erva e úmido por aqui e passarão a ser escritas só dessa forma em todos os países lusófonos). Além disso, como regra geral, desaparecem o c e o p das palavras em que essas letras não são pronunciadas.
COMO É HOJE
COMO VAI FICAR
acção
ação
aflicto
aflito
colectivo
coletivo
director
diretor
exacto
exato
baptizar
batizar
NO ENTANTO,
em alguns casos em que a letra c é pronunciada, seu uso poderá ser facultativo. Exemplos: facto, sector.
O acordo prevê também dupla grafia (ou seja, a forma de escrever é opcional, conforme o uso mais comum em cada local) nas palavras proparoxítonas cuja vogal tônica admita mudança de timbre. Exemplos: acadêmico (ou académico, grafia mais comum em Portugal), cômodo (ou cómodo), ingênuo (ou ingénuo), oxigênio (ou oxigénio).
As chamadas proparoxítonas aparentes também permitem dupla grafia: gênio (ou génio), insônia (ou insónia).

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